Poems

Emigrante

Todas as tardes o poente dobra
            o teu polegar sobre a ilha
E do poente ao polegar
            cresce
            um progresso de pedra morta
Que a Península
                          Ainda bebe
Pela taça da colónia
Todo o sangue do teu corpo peregrino

Mas quando a tua voz
            for onda no violão da praia
E a terra do rosto E o rosto da terra
             Estender-te a palma da mão
Da oral maritima di ilha
                       De pão & pão feita
Ajunturás a última fome
            à tua fome primeira

Do alto virão
rostos-e-proas-da-não-viagem
             Assim erva assim mercuro
Arrancar-te as cruzes do corpo

O grito das mães leva-te
                         agora
À sétima esquina
             onde a ilha naufraga
             onde a ilha festaja
A sua dor de filha
E a tua dor de parturiente

Que toda a partida É potência na morte
         todo o regresso É infância que soletra
Já não esperamos o metabolismo
             Polme de boa fruta fruta de boa polpa
A terra
            aspira
                         teu falo verde

E antes que teu pé
                               seja
                                     árvore na colina

E tua mão
            cante
                       lua nova em meu ventre

Vai E planta
             na boca d’Amílcar morto
Este punhado de agrião
E solver golo a golo
             uma fonética de frescura
E com as vírgulas da rua
    com as sílabas de porta em porta
Varrerás antes da noite
Os caminhos que vão
             até às escolas nocturnas
Que toda a partida é alfabeto que nasce
         todo o regresso é nação que soletra

Aguardam-te
             os cães e os leitões
             da casa de Chota
             que no quintal emagrecem de morabeza

Aguardam-te
             os copos E a semântica das tabernas

Aguardem-te
             as alimárias
             amordaçadas de aplauso e cana-de-açúcar

Aguardam-te
             os rostos que explodem
             no sangue das formigas
             novos campos de pastorícia

Mas
             quando o teu corpo
                          sangue & lenhite de puro cio

Erguer
                Sobre a seara
A tua dor
E o teu orgasmo
             Quem não soube
             Quem não sabe
                         Emigrante
Que toda a partida É potência na morte
E todo o regresso É infância que soletra

Share this poem

view comments

Comments (4)

milica bravacic

and in the light of the migrations we witness now…such a strong poem

Hebe

Fantastic poem!

paulo silas

Legal! Nunca tinha ouvido um poema em Português de Portugal!

kelly

my love is for yur long life 
 
rahul

Leave a comment