Poems

a mula

um silêncio amamentado com veneno
um silêncio imenso
– Paul Celan, tradução de Flávio R. Kothe
 
mede o valor de seu empenho
e afirmações tendo
como medida o peso que carrega
como boa mula não faz ideia
de quem a monta mas
está a seu serviço
 
como toda boa mula
empaca na beira do
abismo não morrer
é sua vingança
filomena sem língua
e mula
não pula por ódio
não por esperança
(e nisso há uma diferença
fundamental).
 
a mula-lavínia
também teve sua língua
arrancada de lucrécia
mula e adormecida
não arrancaram
nada mas a chantagem
é também uma mordaça
a mula-talia
dormia quando foi
violada
foi maury e mula
que conseguiu
abrir a boca
e ao virar asno
mudou o próprio
nome e o das coisas
a nova mula aprendeu
alemão e vergewaltigung
deixa de ser o que é
vira um som qualquer
dito com a mesma
entonação que cometa
fúria jacaré passarinho
fósforo procissão pedra
cacto
 
a mula empacada
quase muda ao menos
nunca foi surda
‘até das pedras lhes ouço a desventura’
cada um tem o que diz
a mula em zarathustra
a mula de hilst
mas o rouxinol que canta
é o rouxinol macho.

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